Autor: Sérgio Fuscão

Destino: Peruíbe

Data: 15/11/1985

Continua

Isso aconteceu há muitos anos, em 1985.
Eu era noivo da Vera e tinha comprado minha primeira moto com condições de rodar na estrada - uma RX125, ano 79.
Logo que a comprei, comecei a viajar e gostar muito das estradas.
Apesar de velhinha, a moto estava inteira: motor feito recentemente e revisões sempre em dia.
Naquele ano, o dia 15 de novembro caía numa sexta-feira, ou seja, feriado prolongado.
Apesar de meus pais haverem se mudado de São José dos Campos, minha mãe continuou indo para lá, pois como professora, não havia conseguido se transferir naquele ano e assim, deixava seu carro na minha vaga para usá-lo quando ia trabalhar.
Os pais da Vera, sabendo que minha mãe sempre ficava no meu apartamento, não se preocupavam se ela fosse para lá.
Na proximidade do feriado, meus familiares estavam planejando ir a Peruibe, onde meu tio tinha um chalezinho, porém nesta semana, minha mãe não foi a São José, preferindo justificar suas faltas na escola.
Eu, cheio de segundas intenções, planejei com a Vera, dela passar a noite de quinta para sexta, comigo, no meu apartamento, dizendo aos pais dela que minha mãe estaria com a gente e que no dia seguinte iríamos os três, de carro, para Peruibe.
Na realidade a minha idéia era de sairmos, eu e ela, de moto.
Tudo estava certo até na quinta à noite, quando começou a chover.
Liguei para meus pais para confirmar a viagem, porém eles decidiram não ir mais.
A esta altura, a Vera já estava no apartamento e eu não teria como levá-la de volta para a casa dela, senão nosso plano seria descoberto.
Também não poderíamos ficar em casa, pois corríamos o risco de algum parente dela aparecer por lá no final de semana e encontrar a gente. Resolvi que iríamos assim mesmo. Eu não conhecia o endereço do meu tio. Nessa época não existia celular e tudo o que eu sabia é que a casa dele ficava num tal de “Residencial Chalé”.
Acordamos na sexta-feira cedo e tocamos até Jacareí, onde paramos para abastecer a moto.
Fomos em frente e na Regis vi uma placa que indicava Peruíbe a 36 km.
Pelos meus conhecimentos do consumo da moto, esses 36 km dariam certinho para o resto do tanque de gasolina.
Naquela época, os postos não podiam abrir nos feriados, a não ser em cidades turísticas ou em alguns autorizados, dessa forma, acreditávamos que o problema do combustível seria resolvido na cidade.
Terminados os 36 km existe outro trecho, com aproximadamente 12km.
No início desse novo trecho, pensei comigo mesmo: - "Não vai dar..."
Dois quilômetros depois a gasolina acabou.
Resolvemos pedir para alguém parar, de forma a emprestarmos ou comprarmos um pouco de combustível para prosseguir.
Parou um Corcel (que já era velho), com três homens dentro, porém não conseguimos tirar gasolina do carro, pois tinha grade, internamente, na boca do tanque.
O motorista se ofereceu para levar algum de nós para a cidade.
Ficamos num dilema terrível: se eu fosse, a Vera ficaria sozinha com a moto na estrada. Se ela fosse, iria acompanhada de três estranhos.
Discutimos um pouco e concluímos que a segunda opção era a melhor. Ela foi.
Chegando na cidade, não encontraram postos abertos, aí o motorista falou para que ela saísse do carro e “se virasse”.
Ela comprou uma garrafa de água, pois estávamos com muita sede, foi até um taxista e propôs que ele a levasse até onde eu estava e vendesse gasolina prá gente.
Quando ela chegou, bebemos a água da garrafa, cortamos ela, fazendo um funil com a boca e um recipiente para o combustível com o restante.
Depois da moto abastecida, o motorista nos informou que no distrito de Anadias, pouco antes da cidade, havia um posto que estaria aberto.
Fomos até o posto e completamos o tanque.
Moto abastecida e acreditávamos que tudo estava certo... Que nada. Alguns quilômetros à frente, batemos a roda dianteira num buraco e tivemos o pneu furado.
Parados novamente, ela ficou pedindo carona enquanto eu tirava a roda.
Alguns minutos mais tarde, parou um garoto numa TT125. O rapaz aparentava ter uns 16 anos. Ele estava sem camisa, sem capacete, de bermuda e chinelos.
Perguntei de onde ele vinha e fiquei surpreso quando ele me informou que era de Sampa... Loucura total !
A Vera foi com ele até Anadias, no borracheiro do posto onde já havíamos passado.
Algum tempo depois eles voltam, despedimos do garoto, montamos a roda e seguimos em frente.
Chegamos a Peruibe. Parecia que tudo ia se resolver...
Bom, eu ainda não sabia o endereço do tio. Tinha que me informar onde ficava os chalezinhos.
Paramos em um prédio e um senhor veio nos atender.
Perguntei se ele sabia aí ele me disse que todos os conjuntos de pequenos prédios eram conhecidos como chalés e que a cidade tinha 60 km de extensão por 15km de largura. Seria como procurar uma agulha no palheiro.
Resolvemos ir à companhia telefônica e ligar ao meu pai.
Ao ligar, disse que eu estava “pensando” em ir e se ele podia me passar o endereço do tio.
Meu pai disse que não era para eu viajar e que nem me daria o endereço.
Eu não tinha mais argumentações. Desliguei o telefone e saímos na cidade procurando.
Rodamos umas duas horas e nada.
Já estava ficando tarde, quando eu resolvi que, apesar do pouco dinheiro, ficaríamos num hotel.
Paramos na frente de um. Em baixo havia alguns pontos comerciais e dentre eles, uma imobiliária.
Por desencargo de consciência, resolvi perguntar mais uma vez.
O corretor me perguntou as características do meu tio, confirmou que ele mesmo havia vendido o chalé e que estávamos a menos de 200 metro do local.
Fomos até lá e quando nos aproximamos da esquina, ele estava chegando. Foi um alívio...
Passamos um final de semana excelente. Muita praia, muitos passeios agradáveis e um retorno perfeito, pela Imigrantes.

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