Autor: Sérgio Fuscão

Destino: Salto Grande-SP

Data: 1989

Continua

Numa determinada fase de minha vida as coisas foram, realmente, muito difíceis.
Iniciando a prestação de serviços em Ourinhos-SP e região, vivia num miserê franciscano, prá não dizer pior...
Isso era o finalzinho da década de 80 e eu tinha em torno dos 24 anos de idade...
Durante alguns meses, fiquei sem moto.
Neste período, conheci um rapaz, proprietário de uma loja de que me ofereceu um consórcio contemplado de uma Agrale.
As condições eram realmente boas e fechei o negócio sem pensar duas vezes...
O único problema, era que a nota fiscal da moto estava com um erro e só percebi um mês depois, quando estava encerrando o prazo para licenciá-la.
Por ironia do destino, a concessionária fechou as portas nesse meio-tempo e eu fiquei com um "mico” nas mãos.
Enquanto tentava acertar a situação da moto, continuei rodando com ela, já que, apesar da irregularidade na documentação, eu a mantinha sempre 100%. Sempre usei equipamento de segurança, mesmo quando a polícia não cobrava e sempre respeitei muito as leis de trânsito.
Durante o tempo em que estive com aquela Agrale nunca fui parado por um comando e confesso que apesar dos pesares, me divertia muito rodando com ela...
Precisando de dinheiro, fui procurado por um empresário de Salto Grande, cidade ao lado de Ourinhos.
Ele queria que eu visitasse sua empresa e que levasse uma proposta bastante interessante de trabalho.
O que complicava minha vida, naquele momento, era que eu estava sem carro e a moto sem a documentação.
Com medo de perder o negócio, perguntei a alguns conhecidos, se havia um caminho alternativo entre Ourinhos e Salto Grande.
O pessoal me informou que havia uma estrada de terra que ia ao lado da linha do trem e que a única limitação era uma ponte exclusivamente da ferrovia, mas que por onde passavam pedestres também.
A ferrovia, naquela região, é bastante movimentada e Ourinhos é um sério entroncamento de trens que vêm do oeste paulista e norte do Paraná.
Imaginei uma ponte larga, com laterais calçadas para os pedestres e por onde eu poderia rodar por alguns metros.
Me preparei, subi na moto e fui embora...
Após haver rodado uns quinze quilômetros em uma estrada de terra até que bem conservada, notei que ela começava a se fechar, tornando-se praticamente uma trilha no meio do canavial.
Comecei a ficar preocupado, mas não me dei por vencido. Fui rodando devagar, com bastante cuidado, mas sempre em frente.
De repente avistei a ponte... terrível !!!
Ela era de madeira, estreitíssima, não havia passagem para pedestres na lateral e sim no meio da linha do trem.
A linha por sua vez, ficava sobre uma montanha de mais de um metro de brita e os trilhos pareciam muito difíceis para transposição das rodas da moto e haviam curvas, antes e depois da ponte, de tal forma que era impossível ver o que se passava...
Parei ao lado da ferrovia, desci da moto e fui dar uma analisada nas condições.
Pensei em voltar, mas estava preocupado com o contrato... aquilo me atormentava.
Observei o comprimento da ponte e notei que ela era bastante comprida, ou seja, quando eu estivesse no meio dela, uma locomotiva poderia aparecer de um dos lados e seria meu fim...
Coloquei o ouvido no trilho, para sentir se havia alguma vibração e não percebi nada.
Voltei prá moto e rezando e tremendo de medo, subi a montanha de brita, pulei o trilho e posicionei a Agrale no meio.
Dali em diante foi só pânico.
A travessia deve ter durado algumas dezenas de segundos, porém pareciam anos... o tempo não passava.
Eu olhava para baixo e a ponte era bem alta em relação ao rio, creio que mais de dez metros... olhava para frente preocupado, tremendo... para o retrovisor, esperando a locomotiva...
Nada... Não apareceu nada.
Cheguei do outro lado, desci a moto dos trilhos e agradeci a Deus por haver me deixado escapar daquela situação.
Segui em frente até chegar em Salto Grande. Na estação ferroviária.
Fiz algumas manobras prá sair de lá e consegui chegar no cliente.
Fechei o negócio. Fiquei mais tranqüilo e retornei. Porém retornei pela rodovia, mesmo correndo o risco de ter a moto apreendida. Porque seria melhor encarar a polícia, do que aquela ponte, novamente... nunca mais voltei lá.

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